quarta-feira, 28 de dezembro de 2016




2016/2017


Não me lembro das passagens de ano, em Manaus, quando era jovem. Comecei a notá-las, quando mudei pra o Rio de Janeiro, no fim dos anos quarenta. Era mais pé no chão, ou melhor, na areia. Não tinha a parafernália que tem hoje. Fogos no meio da baía, palcos para shows e outras "mumunhas", como diria a saudosa Araci.
No começo, décadas de cinquenta, sessenta, setenta, ainda podia-se flanar pelas ruas do Rio, sozinho, durante a noite. A marginalidade era pontual. Copacabana e o Centro da cidade eram os palcos de todos os entretenimentos, de então.
O meu prazer, mesmo, na noite da virada (como se diz hoje) era caminhar pela praia, as vezes descalço, apreciando e recebendo passes de pais ou mães de santo, em plena praia, ao murmúrio do mar. Os altares eram grandes cavidades na areia, onde, protegidas do vento, se colocavam as imagens de Iemanjá, a rainha da festa, rodeada de lírios e velas. Toda a praia era um imenso baixo relevo dedicado a Deusa.
Ao se aproximar da meia noite, as charangas começavam a tocar, os tambores a ruflar, os fogos desciam em cascata do topo do Hotel Mediterané e todo mundo de branco começava a cantar, se abraçar e se beijar, numa tristeza de adeuses pelo ano que morria e de alegria pelo que nascia, ao som daquele enorme coral. Era como no samba-choro de Assis Valente, de 1938, cantado por Carmem Miranda:
“beijei na boca de quem não devia
peguei na mão de quem não conhecia
dancei um samba em traje de maiô
e o tal do mundo não se acabou ."

Mas, ontem como hoje, o meu desejo mesmo é que todos tenham um feliiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiz e próspero -  2017.                                 

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Uma esquina de São Luís - MA


REDE


A rede foi o primeiro móvel brasileiro registrado pela história: a Carta de Pedro Álvares Caminha, do dia primeiro de maio de 1500. Certidão de nascimento do Brasil. Pero Vaz assim a notificou a D. Manuel:” e de esteio a esteio uma rede com cabos em cada esteio, altas, em que dormiam. E debaixo, para se aquentarem, faziam seus fogos.” Aconchego e calor, digo eu.

Foi naturalmente a primeira cama dos invasores, conquistadores, colonizadores, cafusos, negros, mulatos, sararás. Nelas foram gerados nossos primeiros ancestrais. Nelas amaram, gemeram, pariram, morreram e foram enterrados os primeiros brasileiros. Como até hoje nos cafundós do sertão ou nas profundezas das matas amazônicas. Herança indígena.

Atravessou a história, entrou no folclore, na sociologia, na antropologia, no romance, no cinema, na música e como não poderia deixar de ser na poesia. Pois é assim que ouço Jorge de Lima:

“........................Fulô!
vem coçar minha coceira,
vem me catar cafuné,
vem balançar minha rede,”

Seu nome prestou-se a outras atividades: rede de pescar, rede telefônica, rede de espionagem, rede elétrica, tecido fino de malha com que as mulheres protegem os seus cabelos e agora a maior rede de comunicação do mundo: internet.


Mas é como diz poeticamente um dos meus dicionários “leito balouçante, preso por duas extremidades, geralmente dois portais ou duas árvores”, que ela me seduz. Os desenhos, as cores, as varandas, a envolvência sensual com que recebe os corpos, que nelas se deitam e que me faz logo pensar no dito popular: abaixo do Equador tudo é permitido. Na rede, é claro.

sábado, 19 de novembro de 2016



Feira Livre

Feira livre. Há quem as condene. Dizem que atrapalha o tráfego, faz muito barulho desde a madrugada, provoca mau cheiro, transtorna a vida dos moradores das casas, nas ruas em que elas se instalam. Mas estou quase certo de que esses mesmos esperam a hora da xepa para comprar os seus artigos mais baratos. É um passeio capaz de despertar todos os sentidos e paladares.

A variedade de cores das pirâmides de maçãs, laranjas, tangerinas, mangas; o amarelo dos melões, o vermelho das talhas de melancia, a variedade de mamões. O degradê vermelho, amarelo e rosa dos pêssegos, o arroxeado dos figos ordenados dentro de pequenas caixas de madeira, assim como a sensualidade dos morangos, aguardando a nossa gulodice. Quiabos, maxixes, jilós; xuxus, beringelas, abóboras; arroz, feijão, lentilha; alface, couve, cebolinha...e as carnes: porco, boi, aves, peixes; embutidos diversos...utensilhos de cozinha; ervas para todas as finalidades; pimentas em espécie e conserva. O assédio, ora dengoso ora engraçado, dos vendedores, apregoado em prosa, verso e música - é poesia, irresistível.


Me refiro as feiras do Rio e de São Paulo. Onde há muito mais opções de frutas, legumes, verduras, flores, comestíveis em geral. Fico imaginando os adeptos da comida politicamente correta, ao virem porcos, bois, carneiros esquartejados, aves depenadas, os olhos vítreos dos peixes, fitando-os. Vegetarianos, avante, contra os ímpios! E as ervas, os legumes, as verduras, os tubérculos não foram arrancados e retalhados também? Não vivem? Há pessoas que dizem falar com as plantas e que elas se não as respondem, sentem. Ora direis, falar com plantas. De certo perdeste o senso. Falai com elas e ouvirás os seus gemidos quando com faca afiada as retalham para a vossa deliciosa salada. Eu que sou declaradamente ímpio, me delicio com carnes, aves, abóboras e até jilós.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016




MARINHEIRO DE PRIMEIRA VIAGEM

Conhecer o mar é o sonho de quase todo interiorano. Como amazônida, o meu não poderia ser diferente. Esse sonho é quase sempre oriundo da leitura. De poesia, de romances de aventura, de narrativas de viagens. Assim foi o meu. O primeiro romance que li foi “Robinson Crusoé”, de Daniel Defoe. Escritor inglês que viveu entre 1660 e 1731. Foi um prêmio escolar. Não lembro a razão de tal premiação. Sei que me aventurei, me naveguei, me naufraguei com Crusoé. Ajudou a construir o meu individualismo? No mínimo a gostar de literatura. Depois veio a poesia de Castro Alves (1847-1871):

  “`stamos em pleno mar...Abrindo as velas
     Ao quente arfar das vibrações marinhas,
     Veleiro brigue corre à flor dos mares
     Como roçam na vaga as andorinhas...”

Mas foi a poetisa amazonense Violeta Branca Menescal de Vasconcelos que realmente começou com seus poemas a encher de vagas a minha adolescência. Líamos e relíamos seu livro “Ritmos de Inquieta Alegria”. Por causa dele, fomos amantes e marujos. Por ela mesma enamorados:
       
             “ Estendo os braços para o mar
             -Glória maior do movimento-
             E levanto os olhos para o sol
             Suprema síntese da luz!”      

Até que um dia, aos vinte um anos de idade, não suportando mais esperar, tomei um barco e fui conhecer o mar. Depois de viajar vários dias pelo “Mar Dulce” entramos no delta amazônico de madrugada. Era de ver-se o grande triângulo se abrindo, deixando de ser rio e metamorfoseando-se em Oceano. Atlântico. O deus raivoso. O barco perdendo a estabilidade, os conveses se despovoando, os passageiros se recolhendo e eu, ali, firme, esperando o grande momento do “`stamos em pleno mar”.

De repente, como num piscar de olhos, num cochilo, numa vertigem, não havia mais nada senão água, água, água. A superfície era uma massa espessa como vísceras pulsantes e vivas. O mundo se liquidificara e só existia o mar, e sobre o mar o navio, e dentro do navio, um sonho a navegar.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016




                                Lição nº 3

Finalmente “O Imoralista”. É a história de um jovem casado que, numa convalescência, recobra o gosto de viver ao conhecer um adolescente árabe. A propósito, copio as palavras da contra capa que diz que é com O Imoralista que Gide melhor justifica as palavras que o definiram para Jean-Paul Sartre: “ele nos ensinou, ou lembrou, que tudo podia ser dito – essa a sua audácia – mas segundo certas regras do bem dizer – essa a sua prudência”. Lições:
- Saber libertar-se não é nada; difícil é saber ser livre.
- Ser me ocupa bastante.
- Estudava minha vontade como se estuda uma lição;
- minha salvação dependia só de mim.
- ignorando as necessidades do meu corpo. Estudei-o pacientemente.
- não falava para não dizer nada.
- nunca fui um brilhante conversador;
- não se pode, ao mesmo tempo, ser sincero e parecer sincero.
- considero a sobriedade uma embriaguez mais poderosa; conservo com ela a lucidez.
- mentia ao dizer que não mentia mais.
- gosto bastante de ver para querer viver acordado,
- só existo totalmente.
              

La porte étroite


                                                           Lição nº 4

Grande parte da obra de Gide é baseada na sua própria vida. Mas há livros que são mais que outros. Entre os que mais citam: O Imoralista, A volta do filho pródigo, Se o grão não morre e A porta estreita. É desse que copio agora:
- vitórias que obtemos nós próprios.
-  Não és bastante forte para caminhar só?
- Não devemos julgar um homem através de um momento da sua vida.
- A vida inteira aparece-me sob a forma de uma longa viagem com ela, através dos livros, dos homens, dos países...

domingo, 18 de setembro de 2016



Em “De Senectude“, Norberto Bobbio, aos 87 anos diz: “Nunca imaginei viver tanto“, nem eu, digo aos noventa e seis. Sempre pensei que morreria aos 47 anos, depois aos 57. Não morri. Também não lembro a razão dessas suspeitas. Com essas idades morreram minha irmã mais nova e meu pai, respectivamente. Essas mortes me abalaram muito. É, aliás, uma das coisas mais tristes do envelhecer: perder os parentes queridos, os amigos de infância e as grandes admirações. É como se tivessem arrancado páginas de nossa história, pedaços de nós mesmos.

Se tivesse que escolher uma figura para representar esses noventa e seis, escolheria a linha reta. Nada relacionado a moral, retidão, caráter, mas a uma vida sem lances heroicos ou dramáticos. Vida, vivida na hora certa. Infância, adolescência, maturidade, velhice, senectude. Escola, trabalho, lazer, ócio remunerado. É verdade que faltaram alguns papéis na vida civil: marido, pai, avô. Pois não me casei. E não prevariquei com resultados. Pelo menos não me pediram exame de DNA até agora. Sem remorsos. Pura falta de vocação.

Foi uma vida sem lances heroicos ou dramáticos, mas profundamente vivida. Pelo conhecimento do mundo. Não nasci com vocação para isso ou aquilo, para disso ou daquilo. Eterno aluno. As salas de aula nunca foram um cárcere para mim, ao contrário. Foi dentro delas que descobri minha “vocação”: viajante. No sentido literal e virtual. Viajo nos livros, nos filmes, no teatro, na música, e viajo viajando. Para isso é preciso que a mente e o corpo permaneçam vivos. Tenho tido sorte. Eis outra das tristezas do envelhecer: quando a mente recusa o envelhecimento do corpo. Não me refiro a libido, embora não a exclua. Falo do viver aprendendo: ver, ouvir, sentir, gustar.  A dependência é um castigo. Por isso sou a favor da eutanásia. Mas... viver é preciso.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016


Da leitura de uma entrevista que Jorge Luis Isidoro Francisco Borges Azevedo ou simplesmente Jorge Luis Borges concedeu a “Nicolau”, em 1984, dois anos antes de sua morte: ao ser perguntado por que destruía algumas de suas obras, respondeu: “Com toda razão William Butler Yeats observa: It is my self that remake (É em mim que me refaço); quando lhe foi perguntado por que publicava, deu a resposta que dera a Alfonso Reyes: “publicamos para não passarmos a vida corrigindo erros ”, e lhe diz “Tudo o que  publico é rascunho, porque todo texto é corrigível. Indefinidamente”..


Paulo Rónai, o húngaro que se naturalizou brasileiro, nos idos de 1940, conta num artigo intitulado "Como aprendi português", que, quando, ainda na Hungria, estudava o nosso idioma, o único escritor húngaro que ele conhecia e também estudava pótugueso era o escritor  Desidério Kosztolányi. E ouviu ele dizer que o português falado lhe "parecia alegre e doce como um idioma de passarinhos". E Ronái relata, no mesmo artigo, a dificuldade de entender o português falado de Portugal, onde esteve a caminho do Brasil e a alegria de ainda a bordo do navio que o trouxe, no cais, entender tudo o que lhe falavam em português brasileiro. E escreve: "O idioma quem aprendi em Budapeste era mesmo português!"
Ao ler o artigo no livrinho (o adjetivo se refere ao tamanho da edição) recém publicado pelas "edições Janeiro, sob o título de "Como aprendi português e outras aventuras",  em um dos artigos ele se perguntava onde estavam as consoantes, eu me lembrei de uma relação de palavras que fiz e cuja única vogal a ser pronunciada é o a. Por exemplo:   palavra, gargalhada, camarada, amada, sagrada, alada, sacada; casa, cama, fama, lama, dama, drama (estas seis usadas nas letras de dor de cotovelo do cancioneiro brasileiro) mana, garapa, cachaça...para! e saravá, Cara!
 Paulo Rónai foi, entre outros estrangeiros eruditos, um presente que a guerra de 39-45, nos presenteou. "Mar de histórias", organizado com o brasileiro, Sérgio Buarque de Holanda é um verdadeiro monumento erguido pelos dois. Grato, Gratas.

terça-feira, 14 de junho de 2016

                 

Lição nº 2
 
 Relendo “Os frutos da terra", de André Gide, me lembrei de certos textos de Clarice Lispector. Sensorial. Sempre me diziam que “O Imoralista” era seu livro mais perigoso. Não creio em livros perigosos. E se os houver, um dos mais perigosos é justamente o mais lido (?) – a Bíblia.  Mas, em relação a Gide, creio que esses primeiros frutos da terra, será o mais instigante. Lições:
- Suprimir em si a ideia de mérito;
- Que a importância esteja em teu olhar, não na coisa olhada.
- Agir sem julgar se a ação é boa ou má.
- Deixa a cada um o cuidado de sua vida.
- Compreender é sentir-se capaz de fazer.
- Que tua visão seja nova a cada novo instante.
- cada coisa nasce de sua necessidade…
- toda liberdade é provisória…
- o mais belo sono não vale o momento em que se acorda.
- Habituei-me a dormir diante da janela bem aberta…
- minha vida transborda de recordações
- ser só em mim é não ser mais ninguém; eu sou povoado.
- não acredites que tua verdade possa ser encontrada por outrem;
- compreendi que o melhor ensinamento está no exemplo.
- Tudo está em saber ver.
- Todos devem sempre um pouco de si mesmos a outrem.
- Deixei de pensá-lo, ele deixou de ser.
- Deixa pois de censurar o que difere de ti.
- O homem faz-se.
- Depende só de ti
- O apetite de saber nasce da dúvida.
- Somos responsáveis por quase todos os males que sofremos.
- Não implores mais de outrem o que tu mesmo podes obter.

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                    Mercado de Manaus

Sem qualquer bairrismo, para mim, o Mercado Municipal de Manaus, junto com o de Belém, no Ver-o-peso, são os dois mais bonitos que já vi, por esses brasis, no estilo eclético ou art-nouveau. Sua construção foi iniciada em 1880, pela firma Bakus & Brisbin, com pavilhões construídos em estrutura de ferro, pela firma Francis Norton, Engineers, de Liverpool. Ferro, pedra e tijolo.
Situado no centro histórico de Manaus, com uma área de 3.500m², dividida em quatro pavilhões: o Central, o de Carne, o de Peixe e o das Tartarugas, quando a venda desse cetáceo era permitida. Do lado de fora, em cada lado, há um pavilhão para a venda de cigarro, fósforo, bombons, jornais.
Construído por partes, o Mercado, como o vemos  hoje, só foi inaugurado em 1906, pelo então prefeito da cidade Adolfo Lisboa. Que passou a ter o seu nome no frontispício. “Nas duas fachadas principais, fechando os arcos, há gradis de ferro com ornatos decorados, acompanhados por vidros coloridos”, a estrutura é sustentada por 28 colunas de ferro.
Dentro, no vão central, vende-se de tudo, artesanato caboclo e indígena, ervas medicinais, produtos para casa e cozinha, pimentas vivas ou em conserva, farinhas seca e dágua, e o famoso tucupi. O pavilhão de carne para mim não tem graça, mas o de peixe é fascinante. Pela enorme variedade e quantidade. Vai dos nobres: tambaqui, pirarucu, tucunaré os menos nobres, matrinchã, sardinha, mandi até o popularíssimo, jaraqui. Olha, mano, isso é apenas uma amostra do que se vê lá.
Os arredores também é imperdível.  Azafama de barcos que chegam e saem em todas as direções desses confins amazônicos. E se os ouvidos estiverem atentos a música do linguajar local é de merecer também a atenção dos iniciantes em amazonologia. Vai lá! Na cidade, não esquece no “Moronguetá pede costelas de tambaqui na brasa: no “Poraquê” um tucanaré na água grande com farinha do uarini e pimenta murupi e no “Bom Gosto”  pede o caldo de peixe, como entrada. Vai! Vai lá! Manaus te espera.

quarta-feira, 25 de maio de 2016



A ativista e o alienado.


Revendo, hoje, um antigo programa do Jô, ouvi uma diatribe antipetista do ator Carlos Vereza e me lembrei de uma saia justa em que me meti numa das tardes de fim de semana, no sítio de Estrigas, no Mondubim. Mas antes de contar o que se passou devo esclarecer que Estrigas e grande parte dos frequentadores de suas open house, de fim de semana, eram de esquerda. Do partidão ou petistas. Raros “apolíticos”, como, eu.

Num momento qualquer, uma senhora aproximou-se de mim e perguntou de que partido eu era e em quem eu ia votar. Claro que a pergunta não foi tão direta, assim. Mas era o que ela queria saber. Esclareci-lhe que não tinha partido e que não votava mais. Ela imediatamente me classificou de direita e esclareceu que era dever de todo cidadão votar. Disse-lhe que já era maior varias vezes e que estava exercendo o direito de escolha que a Constituição me permitia.

Para aliviar a tensão que se instalou no rosto da senhora tentei fazer uma pilheria dizendo-lhe que não era nem de esquerda nem de direita, era do norte. Ela não entendeu. E me perguntou então o que estava fazendo ali. Respondi-lhe que era amigo dos donos da casa e frequentava-lhes todo fim de semana. Ela estendeu-me um panfleto que eu não recebi e repeti que era maior de setenta anos e que amparado por um dos incisos do artigo Vº da Constituição tinha, no caso, a meu dispor, cinco opções. Como assim? Poderia votar, votar em branco, anular o voto, não comparecer e pagar multa ou viajar e justificar a minha ausência.


Aí, ela retirou-se dizendo – é por isso que o Brasil está assim. Falta de consciência política. Também acho. Os políticos não conhecem nem a lei que lhes dá o direto de votar ou ser votado. Quando ela me deu as costas eu aproveitei para colher, da minha pitangueira favorita, umas pitangas vermelhas, vermelhas. Deliciosas.
(Na falta de uma pitangueira, vai uma caromboleira mesmo)




quarta-feira, 11 de maio de 2016


                                 Voo Espacial

12/04/2016- Era o dia doze de abril de mil novecentos e sessenta e um. E as tantas da manhã corria a notícia: homem no espaço. A União Soviética tinha lançado no espaço o seu Vostok 1 tendo como tripulante: Yuri Gagarin. Era o prosseguimento de uma audaciosa aventura iniciada no dia quatro de outubro de mil novecentos e cinquenta e sete, quando a mesma União Soviética, enviara para o espaço o Sputnik 1, inaugurando a era espacial.

No dia cinco de novembro do mesmo ano (1957) os sovéticos lançaram o Sputnik 2, com a cadela Laika, a bordo (primeiro ser vivo a orbitar em torno da terra). Os americanos começaram a vociferar, por intermédio de suas sociedades de proteção animal, contra os riscos que a pequena cadela poderia sofrer. E naturalmente apressaram o Dr. Vom Braun a estudar as razões de seus fracassos. Há cinquenta e cinco anos!

Hoje, nada mais espanta nesse setor, ainda que futuramente o homem desembarque em Marte. O começo da era espacial gerou uma série de novos termos, músicas, poemas, moda, brinquedos, filmes, livros, principalmente de ficção cientifica, expressões, a começar pela a bela “A terra é azul”, de Gagarin. Os meninos começaram a atender pelo nome de Yuri. O vocabulário do dia a dia cresceu: Sputnik, nave, orbita espacial, cápsula, ogiva, cosmo, cosmonave, cosmonauta... Palavras que já existiam, mas que a partir daí adquiriram novas acepções e passaram a fazer parte do cotidiano.

Milhares de pessoas em todo o mundo envolveram-se em novas atividades. Outros feitos tão grandes ou maiores sucederam-se, mas nada se compara ao pequeno poema de Gagarim: “A terra é azul”. Apesar da chuva ácida, buraco negro, das marés vermelhas ou do lixo espacial ameaçando cair sobre nossas cabeças: Ave Gagarin!

sexta-feira, 8 de abril de 2016


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Turismo 

1

flores flores vermelhas
brancas amarelas roxas
tulipas negras lilases 
matizadas
entre folhas verdes
de árvores arbustos...

e o riacho
abraçado pela
pela  ponte japonesa
de Monet em Giverny
chorões refletidos no espelho de águas
paradas em Giverny
 
gravuras japonesas da sala
ao quarto e na cozinha
as panelas de cobre
alimentando Monet
em Giverny

eis aí o mais belo monumento
vivo que um homem já ergueu
a si próprio.


quarta-feira, 23 de março de 2016


                Minhas lições de Gide

                               Lição nº 1



André Gide foi o escritor cujos livros eu li e os reli desde que ele me foi apresentado, em Manaus, com certeza na década de trinta, pelo meu colega de escola, Régis. Régis era muito católico e eu começando a descrer. Estava encantado com a Rússia. O livro de Gide do qual ele falava era o “De volta da URSS”. Nunca o li, pois o que lia era em francês. Hoje, resolvi reler Gide. Comecei por “Paludes” uma vez que não tenho o seu primeiro: “Cadernos de André Walter”. Sublinhei muito, mas só vou registrar, aqui, aquilo que passei a considerar lição (quem sabe?) aprendida:
- Nós mesmos decidimos nossas ações;
- é preciso variar um pouco nossa existência.
- é preciso que as pessoas se indignem.
- …não podemos pensar claramente nas pessoas em presença delas.
- não inventamos nossas paixões.
- Nós valemos apenas pelo que nos distingue dos outros.
- você não pode dar aos outros senão o que você tem.   
- o que importa em nós é aquilo que não se pode encontrar em nenhum outro,

   Jean Paul Sartre escreveu, quando da morte de Gide: “ele nos  ensinou, ou lembrou, que tudo podia ser dito – essa a sua audácia -, mas segundo certas regras do bem-dizer – essa a sua prudência”.

    

sexta-feira, 11 de março de 2016

                      

                    Guardiões da arte


O Povo de sábado, dia vinte, deste mês de fevereiro, trouxe um caderno especial sobre os Pets de estimação. Em especial de cães e gatos. E fala naturalmente mais de caninos que de felinos. Os barulhentos de língua de fora estão sempre no top. Deixa pra lá porque o meu o Oscar vai mesmo é – para os felinos.
A notícia traz uma relação dos números de certos animais no país e os felinos estão em terceiro lugar, com 22,1 milhões, abaixo apenas de cães e aves. A estimativa é da Associação Brasileira de Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet). E acrescenta que a região nordeste é a que tem mais gatos. Uma média de 7,4 milhões.
Gostando de gatos, naturalmente, leio sempre sobre esses animais. E tenho mesmo um livro muito curioso cujo título é –“100 gatos que mudaram a civilização”, de Sam Stall. O título é um pouco exagerado, mas, vá lá. Selecionei alguns tópicos de um dos artigos que me pareceram mais interessantes. Ei-los:
“Os gatos sempre foram grandes amigos de bibliotecas e museus. Como ratos e camundongos podem roer um importante manuscrito antigo ou uma inestimável pintura tão rápido quanto roeriam uma espiga de milho” “vários centros culturais empregam felinos matadores para garantir que os estragos causados pela praga dos ratos sejam mínimos”. Uma dessas instituições é o famoso Museu Hermitage, em São Petersburgo, Rússia.
 “Uma força de aproximadamente cinquenta gatos cuida do extenso complexo, assim como tem feito por mais de dois séculos e meio. Esse trabalho começou nos dias em que o Hermitage ainda era um palácio para uso dos czares. Em 1745, a imperatriz Elizaveta Petrovna, filha de Pedro, o Grande, não aguentava mais os roedores no palácio. Ela divulgou uma proclamação real decretando o recolhimento dos “maiores e melhores gatos capazes de caçar ratos”, que deveriam ser despachados para a corte, acompanhados por alguém que pudesse cuidar deles.
Eles “devem ter feito o seu trabalho muito bem, porque permaneceram pelo reinado de todos os czares. Também sobreviveram intactos a revolução comunista”. Foram dizimados durante a segunda grande guerra e até serviram de repasto. Mas o contingente foi depois restabelecido. “Dizem que os gatos dos czares eram persas, mas a coleção atual é um grupo variado de ex-gatos de rua que vivem no porão do museu”.
“Doações de empregados e o lucro da venda anual de pinturas feitas pelos filhos dos funcionários do Hermitage são usados para pagar os custos com veterinários, abrigo e comida suficiente para suplementar a que eles conseguem por conta própria”. Creio que os dirigentes do Hermitage deveriam fazer anuamente uma exposição dos mais belos felinos da sua coleção. Juro que se eu tivesse poder aquisitivo iria lá todo ano prestigiar com a minha admiração esses guardiões da arte.


segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016



Fragmentos 2016


Li, por acaso, numa revista da barbearia, que o ano de 2016 será regido pelo astro rei – o Sol. Horóscopo ocidental. Que o número ideal é o 9 e que as cores são: amarelo, vermelho e laranja. Praticamente a mesma se considerarmos que as duas últimas veem da primeira. Terra é o elemento. Se pensarmos que 2015 foi um dos anos mais quentes desde que se começou a registrar a temperatura, este, vai ser Fogo. Se usarmos as cores indicadas ficaremos dourados, como também indicam alguns que será o ano.

No horóscopo chinês o ano será regido pelo Macaco de Fogo. Olha aí o fogo, de novo. “Ai que calor ô ô ô ...” Enquanto a regência do Sol só começará a partir do dia 20 de março, vindouro, a do Macaco já terá início no dia 8 de fevereiro e irá até janeiro de 2017. Na China, dizem que é feriado nacional e pelo que já vi na televisão em outros anos é como se fosse o nosso carnaval de tão fantasiado. Macaco de Fogo é o meu signo por esse horóscopo. E diz a revista, que será um ano de festas, viagens, aventuras e amizades. Olha, na minha idade, o que eu mais prezo de tudo isso é a amizade. Então, brasileiramente, desejo aos meus amigos e aos nem tanto: Feliz Ano Novo!

*****
O Brasil é governado pela búlgara? Vana Rusev, tendo por  vice o francês? Michel, cujo sobrenome é de se Temer. O presidente do Senado fica entre a França e a Espanha? pois é Renan Calleros (?). Já o presidente da Câmara é uma Cunha capaz de rachar até pedra. O Poder Judiciário é a ONU brasileira: Toffoli, Fux, Weber, Zvascki, presidida por Lewandowisk. A presidente fala uma mistura de brasileiro com búlgaro daí já existir até um livro para explica-la: o Dilmês. Quem sabe vem daí sua popularidade tão baixa? Abaixo de dois dígitos. Os súditos não a compreendem. Em vez de estudar grego não seria melhor umas aulas de brasileiro com o professor brasileiro Pasquale Cipro? Ele, tão crítico de jogadores e narradores de futebol, de anúncios de jornais e outdoors ou de mim se lesse estas notas, não ouve os discursos de madame?
*****

Desde que a palavra ecologia entrou na moda ouço dizer que a Mata Atlântica está em vias de extinção. Ora, se desde esse tempo cada pessoa que escreve ou reclama tivesse plantado uma árvore de seu ecossistema ela, a mata, com certeza já estaria completamente restaurada. Ou não?
*****
A propósito das provas náuticas que se realizarão na Baia da Guanabara, nas Olimpíadas deste ano (2016) “gringos” e brasileiros reclamam insistentemente da qualidade da água da Baia. Mas o que me deixa perplexo mesmo é que ninguém menciona o futuro do Mar Mediterrâneo, sendo “aterrado” de corpos humanos naufragados. Em vez de Berço da Civilização, de agora em diante será chamado de a Necrópole da Civilização? Os de memória curta já esqueceram que Jacques Cousteau há anos advertia sob o fundo poluído do histórico mar? E, agora...     

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