terça-feira, 4 de abril de 2017




EU E OS LIVROS


Um dia, emprestei um livro para uma amiga que, ao devolver-me, reclamou que eu os maltratava muito: sublinhando, dobrando as pontas das páginas, fazendo anotações as margens. Mas ainda assim os livros não eram sebosos. Por fora, nem se imaginava o quanto eles sofriam por dentro. Ela personificava os livros.  Eu disse a ela que essa era a minha forma estúpida de amar. Um tanto de gigolô. Um tanto de malandro. 

Ela ficou um pouco triste, mas expliquei que eu os marcava para encontrar mais tarde os seus melhores momentos: de sabedoria, de poesia, de dúvida. E voltava a eles toda vez que precisava instruir-me, esclarecer-me, enternecer-me. Eles, os escolhidos, pois não procedo assim com todos, parece que gostam disso. E quase se abrem sozinhos nas páginas que desejo ouvi-los. Sim, porque eu não leio só com os olhos, eu os ouço, também.

  Quando ela leu aqueles sublinhados, garanto que parou um pouco e pensou em mim. Talvez tenha se indagado: porque? O que ele não compreendeu aqui? Este trecho é  a cara dele. E algumas vezes se disse: eu também penso assim. E ali, com certeza, nos encontramos, apesar das diferenças. É por isso que gosto de dar livros lidos as pessoas a quem prezo muito. Os sublinhados são pedaços de mim mesmo. Uma espécie de eucaristia.

Outro dia, li que os bibliófilos e bibliotecários condenam também todas aquelas práticas. Ora, eles são profissionais do objeto – livro. Eu sou amigo ou inimigo do autor, do narrador, das personagens. Escrevi personagens no feminino para não me chamarem de machista. Ué! mas nesse caso a palavra feminino para ser politicamente correto deveria ser sempre escrita “feminina”. Ah. deixa pra lá, isso é problema para a Cristiane resolver.

Autor, narrador, personagens, amigos, inimigos? E porque não? Ora, aqueles profissionais dos livros que me desculpem. Sei bem de quem estou falando, pois carrego-os nas mãos, no colo, nas axilas, há mais de cinquenta anos. Juro que eu sou o que sou, em grande parte por causa deles. Foram eles que me fizeram assim. Pois eu penso como o João Cabral: somos só palavras.  Amém!

terça-feira, 7 de março de 2017





PALAVRAS, PALAVRAS


Conjunto de sons articulados, de uma ou mais sílabas, com uma significação. Segundo o aspecto material: é vocábulo; quanto a significação: é termo; colecionadas: é léxico, vocabulário, dicionário. É sobretudo a faculdade de expressar uma ideia por meio da voz. Pode significar tudo: no princípio era o verbo; ou nada: words, words, words. Como diz o atormentado Hamlet, a certa altura de seu drama.

Mas, quando, onde, como, o homem começou a falar? Quem teriam sido esses primeiros interlocutores? A história do alfabeto, da escrita, do livro, da biblioteca está mais ou menos contada. E a da fala? Do papo? Da conversa? Alguns historiadores dizem que os neanderthalenses não eram simples macacos, porque deviam possuir a capacidade da fala. Eram capazes de pensamentos abstratos, uma vez que enterravam seus mortos junto com objetos destinados a utilização na vida além-túmulo. Isso no paleolítico inferior. Isto é, entre dois milhões e dez mil anos antes de Cristo. E antes de antes?

Como se poderia classificar o homem que inventou a fala, a palavra, a frase? Sabe-se que o corpo humano não tem um sistema ou órgãos específicos para a fala. Mas um homem, um dia, pediu emprestado aos sistemas digestivo e respiratório alguns órgãos e criou – o aparelho fonador. E falou. E disse. E, segundo dizem, é o que justamente o diferencia dos outros animais. Somos “memória cheia de palavras”, segundo João Cabral.

Para mim a palavra é fundamentalmente gustativa. Tem sabor. Pronuncio-as como quem degusta. É sempre sobremesa. Leio pelo prazer do texto: romance, conto, poesia. Se o autor não me conduz com sua voz (de barítono ou contralto, de preferência), não passo da décima ou vigésima folha. Tenha o livro a importância que tiver. E mais, não me falem de enredos ou desse ou daquele personagem, não ligo. Com raras exceções. Me ligo nesse ou naquele trecho, que me encheu de som e fúria, que me fez voltar e rele-lo em voz alta para meu próprio deleite. Como este verso de Cecília:
         
 “Canto porque o instante existe
  E a minha vida está completa
  Não sou alegre, nem sou triste
  Sou poeta.” 

domingo, 5 de fevereiro de 2017




Mestre Aurélio diz que religião é a crença na existência de uma força ou forças sobrenaturais, considerada(s) como criadora(s) do Universo e que como tal deve(m) ser adorada(s)e obedecida(s). A manifestação de tal crença por meio de doutrina e ritual próprios que envolvem, em geral, preceitos éticos.
Examinando esta definição e me pensando, chego a conclusão que não tenho crença, doutrina, ritual e quem sabe (?) princípios éticos. Nasci numa família que oscilava entre a Igreja e o Espiritismo. Batizei-me, ou melhor batizaram-me, fiz primeira comunhão e nunca mais pratiquei o que o catecismo naquela época, pregava. Esqueci.
 Não obstante, se tivesse que escolher uma religião escolheria a católica apostólica romana. Porque? Pela teatralidade. O ritual. Quanto mais secular melhor. Missa em latim. Mesmo sem saber latim. Mistério. Teria vindo daí o meu gosto pelo teatro? Talvez.
Essa religião é responsável por sons e imagens que moram dentro de mim desde a infância. Nessa época, o catolicismo brasileiro se manifestava em dois espaços: nas residências particulares (capelas e oratórios; terços e novenas) e nas igrejas (missas, batizados, casamentos e procissões).
Na casa da fazenda dos meus avós havia um quarto que servia de capela. No oratório os santos da devoção dos donos da casa. Lembro-me das novenas de maio e dezembro. A coroação. Os anjos. Uma das minhas tias, como corifeu, tirando o terço: “Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo” e o resto da família, em coro, ajoelhada, respondendo: “Para sempre seja Louvado”. O som murmurante desse responso nunca saiu dos meus ouvidos. Virá daí o gosto pelos corais? Talvez.
 A visão de um grupo de beneditinos numa cerimônia de Vésperas, no Convento de São Bento, no Rio de Janeiro, nunca se apagou da minha mente. E as missas? Do Galo. De Aleluia. E as cerimônias da Semana Santa com as Trevas, os Lava-pés, as Procissões do Senhor Morto e a voz das Verônicas nas tardes mormacentas de Manaus. O que eu esperava mesmo era um momento de desenrolar do Sudário.
 Quanto mais vaticana for a representação mais será do meu agrado. Papal. Ora si. Para mim o cantochão é só música; a Bíblia, só literatura. Como se vê, confundi religião com a arte. E em vez da salvação, procuro a emoção. Principalmente, libertação. Catarse? Em vez de optar pelos pobres, optei pelas pompas. Serei perdoado?



quarta-feira, 28 de dezembro de 2016




2016/2017


Não me lembro das passagens de ano, em Manaus, quando era jovem. Comecei a notá-las, quando mudei pra o Rio de Janeiro, no fim dos anos quarenta. Era mais pé no chão, ou melhor, na areia. Não tinha a parafernália que tem hoje. Fogos no meio da baía, palcos para shows e outras "mumunhas", como diria a saudosa Araci.
No começo, décadas de cinquenta, sessenta, setenta, ainda podia-se flanar pelas ruas do Rio, sozinho, durante a noite. A marginalidade era pontual. Copacabana e o Centro da cidade eram os palcos de todos os entretenimentos, de então.
O meu prazer, mesmo, na noite da virada (como se diz hoje) era caminhar pela praia, as vezes descalço, apreciando e recebendo passes de pais ou mães de santo, em plena praia, ao murmúrio do mar. Os altares eram grandes cavidades na areia, onde, protegidas do vento, se colocavam as imagens de Iemanjá, a rainha da festa, rodeada de lírios e velas. Toda a praia era um imenso baixo relevo dedicado a Deusa.
Ao se aproximar da meia noite, as charangas começavam a tocar, os tambores a ruflar, os fogos desciam em cascata do topo do Hotel Mediterané e todo mundo de branco começava a cantar, se abraçar e se beijar, numa tristeza de adeuses pelo ano que morria e de alegria pelo que nascia, ao som daquele enorme coral. Era como no samba-choro de Assis Valente, de 1938, cantado por Carmem Miranda:
“beijei na boca de quem não devia
peguei na mão de quem não conhecia
dancei um samba em traje de maiô
e o tal do mundo não se acabou ."

Mas, ontem como hoje, o meu desejo mesmo é que todos tenham um feliiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiz e próspero -  2017.                                 

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Uma esquina de São Luís - MA


REDE


A rede foi o primeiro móvel brasileiro registrado pela história: a Carta de Pedro Álvares Caminha, do dia primeiro de maio de 1500. Certidão de nascimento do Brasil. Pero Vaz assim a notificou a D. Manuel:” e de esteio a esteio uma rede com cabos em cada esteio, altas, em que dormiam. E debaixo, para se aquentarem, faziam seus fogos.” Aconchego e calor, digo eu.

Foi naturalmente a primeira cama dos invasores, conquistadores, colonizadores, cafusos, negros, mulatos, sararás. Nelas foram gerados nossos primeiros ancestrais. Nelas amaram, gemeram, pariram, morreram e foram enterrados os primeiros brasileiros. Como até hoje nos cafundós do sertão ou nas profundezas das matas amazônicas. Herança indígena.

Atravessou a história, entrou no folclore, na sociologia, na antropologia, no romance, no cinema, na música e como não poderia deixar de ser na poesia. Pois é assim que ouço Jorge de Lima:

“........................Fulô!
vem coçar minha coceira,
vem me catar cafuné,
vem balançar minha rede,”

Seu nome prestou-se a outras atividades: rede de pescar, rede telefônica, rede de espionagem, rede elétrica, tecido fino de malha com que as mulheres protegem os seus cabelos e agora a maior rede de comunicação do mundo: internet.


Mas é como diz poeticamente um dos meus dicionários “leito balouçante, preso por duas extremidades, geralmente dois portais ou duas árvores”, que ela me seduz. Os desenhos, as cores, as varandas, a envolvência sensual com que recebe os corpos, que nelas se deitam e que me faz logo pensar no dito popular: abaixo do Equador tudo é permitido. Na rede, é claro.

sábado, 19 de novembro de 2016



Feira Livre

Feira livre. Há quem as condene. Dizem que atrapalha o tráfego, faz muito barulho desde a madrugada, provoca mau cheiro, transtorna a vida dos moradores das casas, nas ruas em que elas se instalam. Mas estou quase certo de que esses mesmos esperam a hora da xepa para comprar os seus artigos mais baratos. É um passeio capaz de despertar todos os sentidos e paladares.

A variedade de cores das pirâmides de maçãs, laranjas, tangerinas, mangas; o amarelo dos melões, o vermelho das talhas de melancia, a variedade de mamões. O degradê vermelho, amarelo e rosa dos pêssegos, o arroxeado dos figos ordenados dentro de pequenas caixas de madeira, assim como a sensualidade dos morangos, aguardando a nossa gulodice. Quiabos, maxixes, jilós; xuxus, beringelas, abóboras; arroz, feijão, lentilha; alface, couve, cebolinha...e as carnes: porco, boi, aves, peixes; embutidos diversos...utensilhos de cozinha; ervas para todas as finalidades; pimentas em espécie e conserva. O assédio, ora dengoso ora engraçado, dos vendedores, apregoado em prosa, verso e música - é poesia, irresistível.


Me refiro as feiras do Rio e de São Paulo. Onde há muito mais opções de frutas, legumes, verduras, flores, comestíveis em geral. Fico imaginando os adeptos da comida politicamente correta, ao virem porcos, bois, carneiros esquartejados, aves depenadas, os olhos vítreos dos peixes, fitando-os. Vegetarianos, avante, contra os ímpios! E as ervas, os legumes, as verduras, os tubérculos não foram arrancados e retalhados também? Não vivem? Há pessoas que dizem falar com as plantas e que elas se não as respondem, sentem. Ora direis, falar com plantas. De certo perdeste o senso. Falai com elas e ouvirás os seus gemidos quando com faca afiada as retalham para a vossa deliciosa salada. Eu que sou declaradamente ímpio, me delicio com carnes, aves, abóboras e até jilós.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016




MARINHEIRO DE PRIMEIRA VIAGEM

Conhecer o mar é o sonho de quase todo interiorano. Como amazônida, o meu não poderia ser diferente. Esse sonho é quase sempre oriundo da leitura. De poesia, de romances de aventura, de narrativas de viagens. Assim foi o meu. O primeiro romance que li foi “Robinson Crusoé”, de Daniel Defoe. Escritor inglês que viveu entre 1660 e 1731. Foi um prêmio escolar. Não lembro a razão de tal premiação. Sei que me aventurei, me naveguei, me naufraguei com Crusoé. Ajudou a construir o meu individualismo? No mínimo a gostar de literatura. Depois veio a poesia de Castro Alves (1847-1871):

  “`stamos em pleno mar...Abrindo as velas
     Ao quente arfar das vibrações marinhas,
     Veleiro brigue corre à flor dos mares
     Como roçam na vaga as andorinhas...”

Mas foi a poetisa amazonense Violeta Branca Menescal de Vasconcelos que realmente começou com seus poemas a encher de vagas a minha adolescência. Líamos e relíamos seu livro “Ritmos de Inquieta Alegria”. Por causa dele, fomos amantes e marujos. Por ela mesma enamorados:
       
             “ Estendo os braços para o mar
             -Glória maior do movimento-
             E levanto os olhos para o sol
             Suprema síntese da luz!”      

Até que um dia, aos vinte um anos de idade, não suportando mais esperar, tomei um barco e fui conhecer o mar. Depois de viajar vários dias pelo “Mar Dulce” entramos no delta amazônico de madrugada. Era de ver-se o grande triângulo se abrindo, deixando de ser rio e metamorfoseando-se em Oceano. Atlântico. O deus raivoso. O barco perdendo a estabilidade, os conveses se despovoando, os passageiros se recolhendo e eu, ali, firme, esperando o grande momento do “`stamos em pleno mar”.

De repente, como num piscar de olhos, num cochilo, numa vertigem, não havia mais nada senão água, água, água. A superfície era uma massa espessa como vísceras pulsantes e vivas. O mundo se liquidificara e só existia o mar, e sobre o mar o navio, e dentro do navio, um sonho a navegar.