domingo, 12 de agosto de 2018


Há quarenta anos esta noite - III

Toda vez que se invoca o nordeste, pensa-se logo, em seca. Quando cheguei aqui, ouvia falar até de “indústria da seca”. Promessas eleitoreiras não cumpridas, desvios de verbas públicas para bolsos particulares, esmoleres aos “magotes” pelas ruas. Estes, na verdade, chegavam a incomodar. Certa vez, ouvi alguém dizer: se eu for dar esmola a todos que me pedem vou ter que pedir também para voltar para casa. Morando em casa, era quase necessário ter uma pessoa exclusiva para atender aos pedintes ou despachá-los.
Foi por causa de água que quase não me fixei aqui. A primeira casa que aluguei tinha água de poço. Não sabia lidar com as tais bombas. A da casa recém alugada quebrava mais do que funcionava. E eu não dava trégua a meu primo Eduardo. “Eduardo, a bomba quebrou. Me arranja um bombeiro”. E lá vinha ele com um especialista, contratado no centro da cidade. Eles ficavam a espera de trabalho, geralmente, na esquina da Rua São Paulo com Barão do Rio Branco.
Até que rescindi o contrato de aluguel e mudei para uma casa recém construída, com água encanada. Respirei. Eram poucas as ruas de bairros que tinham água encanada (Cagece). E muitas pessoas não confiavam nos serviços da empresa. Preferiam água de poço, cuja água diziam ser pura. Havia, então, os chafarizes. Os moradores mais abastados contratavam pessoas para entrarem nas filas de madrugada para recolherem água, de manhã cedo. Eles as recolhiam geralmente em latas de querosene, que eram também uma medida de valor.
Todas as casas tinham poço, cuja água os moradores usavam para os serviços de casa. A água para beber era a do poço público.  Perto da minha casa havia um chafariz, na chamada Pracinha, na Rua Érico Mota, atrás do colégio Monsenhor Linhares. O horário ia de seis as dez horas da manhã. O carregadores cobravam cinquenta centavos do cruzeiro para levá-las até em casa. Havia também terrenos particulares com poços de água pura que os proprietários vendiam.
Diziam que havia lugares na cidade que só tinha água de poço.  No sítio de meu amigo Estrigas, no Mondubim, a uns doze quilômetros de distância do centro da cidade, ainda era assim. Consultando um site da cidade de Fortaleza, li que a cidade, na época, não tinha cinquenta por cento de água encanada. É o tipo de obra que além de perturbar o cotidiano da cidade, não dá visibilidade aos políticos. Fica, então, só em projeto. Promessa do candidato a governador ou prefeito na próxima eleição. E o eleitor que acredite e vote ou troque  o voto por um simples favorzinho. “E la nave..."

sexta-feira, 20 de julho de 2018


Há  quarenta anos esta noite - II      

A mudança não foi fácil. Principalmente para minha mãe e minha irmã. Morávamos na Rua Djalma Ulrich, em Copacabana, onde tínhamos de tudo: amigos, parentes, serviços, diversão, em cada quarteirão... e de repente mudar para a Avenida Jovita Feitosa, na Parquelândia, recém asfaltada e com plantações no meio fio que não sabia se iam vingar sob tanto sol ardente e ventos fortes. Na avenida, na época, não havia uma casa de comércio. Foi fogo! Mas com a ajuda dos parentes tudo se arranjou.
Tivemos que nos reeducar em algumas coisas já esquecidas e nos adaptarmos em outras. A alimentação foi uma delas. Há quarenta anos as feiras de Fortaleza ofereciam somente o mais trivial, em matéria de hortaliças. Oriundos do norte, onde não usávamos muito essa forma de alimento, facilmente nos adaptamos a eles quando mudamos para o Rio de Janeiro. Aqui, voltamos a nos privar de espinafre, couve-flor, jiló (uma das preferências de minha mãe), chuchu, abobrinha, beterraba, beringela, batata baroa... Hoje, tem tudo isso e muito mais.
Eu tive que aprender a fazer compras de casa. Supermercado, por exemplo. O rancho, que aqui dizem fazer o "mercantil". Ir a feira, outra aprendizagem. Procurei fazer amizade com os feirantes, falando-lhes francamente da minha inexperiência e eles foram muito simpáticos. Me ensinaram a escolher o peixe (o brilho dos olhos, a cor da guelra; a apalpar as frutas sem machucá-las...). Fiquei mestre e fiz amigos. Hoje, sou um dos grandes apreciadores das feiras livres  e dos grandes super mercados. Embora só faça esses, atualmente.
Nota - Ainda existem feiras, mas a novidade dos supermercados as substituíram em quase tudo: Éxtra,  Carrefour, Cometa, Pão de Açúcar, São Luís, G. Barbosa, Assaí...praticamente existe pelo menos um em cada bairro da cidade.

terça-feira, 10 de julho de 2018


 Há quarenta anos esta noite - I

(O título é parecido com o do filme de Louis Malle: "Le feu follet",  de 1963, que recebeu no Brasil o apelido de "Trinta anos esta noite". E do livro de Paulo Francis, intitulado, "Trinta anos esta noite ou O que vi e vivi". O filme conta a história de um homem atormentado em busca de si mesmo, muito bem interpretado por Allan Delon. Aqui, porém, não se falará de um ser tão atormentado mas com certeza de um pouco do que vi e vivi nesta cidade, nestes últimos quarenta anos).
 No dia 6/07/1978 – Tomei um avião da Cruzeiro do Sul, no Aeroporto do Galeão Rio de Janeiro, voo de 15h30min, com destino a Fortaleza, Ceará, onde cheguei as 20h10min. Tomei um táxi e vim para a casa de  Maria Anunciada, viuva de meu tio Epitácio, na rua Silva Paulet, nº 650, onde já estavam hospedadas Tia Coló e Maria.
Tentava conter a emoção. Afinal, eram trinta anos de Rio de Janeiro, que estava deixando para trás. Quando mudei para o Rio, em 1948, era todo excitação. Tinha vinte e sete para vinte e oito anos. Estava, agora, as vésperas de cinquenta e oito. O estado de espírito era outro. Me adaptaria?
Estava me aposentando e resolvi mudar-me para uma cidade menor, que já conhecesse e tivesse relações de amizade ou parentes. A escolha estava entre Manaus e Fortaleza. No início do ano, pedi a Tia Coló e Maria que passassem uma temporada nessas duas cidades e decidissem em qual das duas prefeririam morar, uma vez que já tinham decidido que me acompanhariam. Assim foi feito.
Em junho, recebi um telefonema de Maria, de Fortaleza, dizendo que eu poderia preparar a mudança para essa cidade. Elas não voltariam. Ficariam a minha espera. Para me certificar fiz uma rápida viagem a Fortaleza. Confirmada a escolha, pedi a Eduardo que nos alugasse uma casa, pequena, confortável e se possível com quintal. Estava farto de apartamento.
Ficamos hospedados na casa de Anunciada até a chegada da mudança e limpeza da casa que José Eduardo  alugara para nós: Avenida Jovita Feitosa, nº 2334, Parquelândia. A casa era muito grande para três pessoas idosas, muito simples e de tão poucos trastes. Tinha sala, três quartos, sala de refeições, cozinha e quarto de empregada. A lavanderia era fora. Era um verdadeiro festival de cores: amarelo, azul, verde, rosa, e preto. Providenciei uma nova pintura: tudo gelo ou areia. Não suportaria tanta alegria vinte e quatro horas por dia.
Nessas casas antigas, as salas de refeições são sempre muito grandes. Maiores do que as outras dependências, principalmente em relação aos quartos. Quase sempre pequenos e estreitos. Difícil caber folgado cama e guarda-roupa. Ainda o hábito de dormir em rede e guardar as roupas em malas ou baús? E as salas de refeições tão grandes? Para reunir em torno das compridas mesas a família numerosa, os parentes, os hóspedes e os aderentes? Pronta a limpeza, mudamos.          
As razões da mudança? Estava me aposentando e não queria continuar trabalhando, pelo menos no que vinha fazendo. Se ficasse no Rio de Janeiro não poderia rejeitar as propostas que me tinham sido feitas. Devia muito a algumas dessas pessoas, mas resolvi seguir a mim mesmo, dai por diante. Estender a minha disponibilidade que era parcial a total. Estava com cinquenta e oito anos e trabalhava desde os doze – quarenta e seis anos. Acreditava ter direito de entrar para a confraria dos vagabundos remunerados, os aposentados. Sem remorso.
Nota - quando me mudei de Manaus para o Rio de Janeiro, em 1948, viajei também, num avião da Cruzeiro do Sul. O comissário, muito meu amigo, prognosticou que eu não aguentaria seis meses. Fiquei trinta anos, por escolha e prazer. E agora? Quantos?

sexta-feira, 29 de junho de 2018


Fantasia ou realismo mágico?

A fazenda ficava entre Manaus e Itacoatiara, distrito de Amatari, como já disse. De lá, diziam ver, de noite, navios iluminados aparecerem na foz do rio Madeira. E essa imagem era associada a Cobra-Grande. Boiúna. Lembro-me de um menino que fazia xixi na rede todas as noites, e todas as manhãs prometiam entregar-lhe a Boiúna, se ele não se corrigisse. Cheio de medo aí é que ele fazia. E o pobre apanhava.
 Essas ameaças eram sempre associadas ao Matinta Perera, uma espécie de Saci de duas pernas; ao Curupira, com os pés voltados para trás; ao Mapinguari, cuja invencibilidade estava no umbigo ou a M´boitatá, a cobra de fogo. Fogo fátuo? Esses eram os bichos papões do lugar.
Havia ainda as histórias de botos, seduzindo donzelas e de Iaras encantando rapazes. Os mais bonitos ou bonitas, que a lenda despreza os feios. Os feios são sempre maus: os bonitos sempre bons. Ai de mim! Mas esses eram assuntos para gente grande. Principalmente quando se sabia do nascimento de algum filho de boto. Sonhar a beira dos barrancos, tomar banho de rio, nua, passear de canoa em lagos e igarapés eram álibis perfeitos para o aparecimento súbito de uma barriga grande em qualquer moça.
Lembro-me de tia Raimunda (que não merecia esse nome e em boa hora lhe arranjaram o apelido de Miminha), tia Miminha, passeando de mãos dadas comigo, em frente a casa, me contando que certa vez ouvira o canto da Iara, bem ali, deslizando pelo rio. E entoava os cânticos sem palavras, que sem eu saber me enchiam de melancolia.
Essas e outras histórias, essas e outras personagens, não são lendas, não são mentiras, na vida do amazônida. São verdades de um povo cuja vida é comandada pelo rio e pela floresta. Histórias de caboclos. Não confundir com índios. Esses pertencem a outro seguimento do mesmo espaço. Esse é o meu: "negro da terra".

terça-feira, 5 de junho de 2018


Educação

Tia Isaura servia de professora as crianças que circundavam a casa: filhos dos trabalhadores e sobrinhos. De ambos os sexos. Meus avós mal sabiam assinar os nomes, mas construíram um grande patrimônio, que os filhos alfabetizados, não quiseram ou souberam cuidar. Não lembro de ter participado regularmente de suas aulas, mas com certeza me alfabetizei vendo e ouvindo o bê-a-bá ensinado aos outros. Pois quando fui para cidade já sabia ler.
 O ensino era cantado. Os livros eram a cartilha e a taboada. Havia também um caderno de caligrafia. Todas as letras dos adultos se pareciam. Tia Isaura não era formada e como constatei mais tarde, era apenas alfabetizada. Mas representou um grande papel: ensinou a ler e escrever a muita gente. O depois era com cada um.
O método usado era leitura em voz alta, ditado e cópia. A taboada era tomada com os alunos de pé em círculo. Havia castigo: a palmatória. Quem respondesse errado levava bolo. Os erros de texto eram reescritos até acertar.
Ela não falava, gritava. De longe podia-se ouvir seus gritos: um mais um; seis vezes quatro; oito menos cinco... Embora eu ficasse isento de tudo: exercícios e castigos, na hora da taboada eu tremia de medo, ouvindo o estalido da palmatória nas mãos dos meninos. Resultado: ignoro as famosas quatro operações até hoje. A leitura, o ditado e a cópia eu tirava de letra. Sem obrigatoriedade, é claro. Eu era um espécie de senhorzinho. Só fazia o que queria. Deu nisso.
Entre Manaus e Itacoatiara, havia um simulacro de escola pública, num lugar chamado Colônia, onde também havia uma Agência de Correio, cuja representante era uma senhora chamada Zinha, mulher de meu tio Rogério. Mas era muito longe. O transporte, é claro, era canoa. Levava algumas horas de viagem da fazenda até lá. Educação era supérfluo ou luxo. Mudou muito?

sexta-feira, 18 de maio de 2018


O que comiam?

Embora a cozinha amazonense seja a base de peixe, na fazenda comia-se muita carne. De boi, porco, galinha e alguma caça. Sempre ouvia dizer que carne rendia mais, quando se tinha muita gente para comer. E era mais fácil e mais rápido de preparar e guardar. A carne de boi vinha do curral. Periodicamente matava-se um. Ver matar um boi foi uma experiência traumática para mim. Fiquei muito tempo visualizando a cena. Parte da carne era secada ao sol e armazenada. Assim como o peixe.
Creio que a maior parte da energia alimentar consumida, vinha do café da manhã pela sua diversidade. Sempre fartíssimo: café (torrado e pilado em casa), leite (colhido diariamente), coalhada, queijo, macaxeira e batata doce cozida, tapioca, beiju, cuscuz de milho ou arroz, jirimum cozido amassado num prato fundo com leite e açúcar, bolachas ou roscas, industrializadas. Era de ver o vai e vem das pessoas servindo a mesa de todas essas iguarias fumegantes. O silêncio era de claustro. Na mesa não se falava. Comia-se. A única voz a se ouvir era a de meu avô, a cabeceira, distribuindo as tarefas do dia, a seus colaboradores.
O almoço era habitualmente um fartíssimo cozido (carne, macaxeira, batata doce, jirimum, banana pacovã), arroz, feijão (da plantação) e farinha.  A farinha era indispensável a qualquer hora. Qualquer um que passasse por uma vasilha cheia de farinha, tirava um punhado e levava a boca com tanta destreza que não caia um farelo sequer. As farinhas são de várias espécies: dágua, seca, surui. Cada uma com sua especialidade. Nos dias comuns não havia sobremesa. 
Nos domingos, com menos gente, o cardápio variava: peixe frito ou assado, galinha a cabidela, sempre acompanhados de arroz e farinha. Ou só de farinha. Nesses dias comia-se sobremesa: doce de leite ou de goiaba, feitos em casa, por minha avó; ou arroz doce, preparado por uma das tias, deliciosos. Melancia, melão, manga, laranja, tangerina, goiaba ou araçá, banana (pacovã, baié, maçã, São Tomé), cajás, pitangas, pitombas, jaca, abiu, cajarana eram frutas do trivial, não eram sobremesa. Comia-se a qualquer hora. Ainda sinto seus cheiros e sabores.

quarta-feira, 18 de abril de 2018


O que produzia a fazenda?

Creio que não se tratava bem de uma fazenda, mas de um grande sítio. Agora é tarde, para saber disto. Os que poderiam esclarecer estão todos mortos. Mas com certeza era muito terreno para poucos bois, cavalos, porcos e carneiros. E muita galinha. O cacarejá destas e o cocoricó dos galos, anunciando o dia, ainda de madrugada, denunciavam a quantidade. Depois de parir seus ovos as galinhas cantam. Porque? Para que? Para quem? Gostava de ver abrir o galinheiro e presenciar a saída delas, ciscando e bicando o chão, buscando a liberdade, com seus bater de asas e murmúrios assanhados. Leve como pena de galinha, crista de galo, parece um galo garnizé, pinto calçudo! Expressões que o tempo levou.
A agricultura era de subsistência. Havia um pomar atrás da casa. Com longas fileiras de diversas espécies de pés de manga – a doçura das espadas, apesar do nome – de laranjeiras e tangerineiras, o perfume das flores das laranjeiras, banhadas de orvalho, aromando a noite, lembrando os buquês de noivas daquela época, é claro. Jambos-brancos, pitangas, pitombas, cajás, bananas de várias espécies, bacaba, açaí e cupuaçu. Estes ainda não conhecidos nacionalmente, como hoje.
Bonito era o tapete verde-fosco das folhas rajadas de branco dos pés de jirimuns, de melões nativos, cujo cheiro me enjoava (até hoje). Plantas rasteiras, contrastando com a alta elegância dos pés de castanha – comum ou sapucaia – elevando-se aos céus com seus ouriços de formas bonitas – principalmente os da sapucaia – e diversas serventias, quando esvaziados. As castanhas quando novas, são leitosas; passadas, são oleosas. Mas sempre saborosas e nutritivas. O que não se sabia, então.
Disse antes, que o mister de suprir a casa do alimento principal era de meus tios. Na verdade, no meu tempo, era de meu tio Alberto e Vicente, uma cria da família. Os outros tios, na década de vinte, já tinham casado ou ido a luta. Tio Alberto era alegre, extrovertido, forte, corajoso, festeiro, namorador. Um típico homem do campo. O rio e a mata não tinham segredos para ele. Quando o via na cidade, de paletó e gravata, achava sempre que estava fora do seu habitat. Era um peixe fora d´água.
Como não vivia da pecuária nem da agricultura, de que vivia então a fazenda? Vivia da venda de lenha, para alimentar as caldeiras das embarcações que demandavam o rio acima e abaixo. A forma de comércio era o escambo. Lenha pra lá, açúcar, café (em grão), sal, bolacha, rosca, tecidos, utensílios de costura, sabão e outras utilidades, pra cá. Assim foi, até 1935, quando venderam a fazenda, cinco anos após a morte de meu avô. E o restante da família: minha avó Joana, minhas tias Luiza, Zulmira e Isaura; meus tios Pedro e Alberto foram morar em Manaus. Com o dinheiro da venda compraram uma casa na rua Silva Ramos, 359, e lá viveram até morrerem todos.


Deixe aqui o seu nome e o seu comentário

Widget is loading comments...