segunda-feira, 30 de dezembro de 2019



Notas de um caderno de viagem VI

10/6/06 - Praia da Baleia - Itapipoca - Milton e Mary passaram por aqui para irmos passar o fim-de-semana na Taíba. Mas encontramos uma Taíba tão urbanamente bagunçada, que desistimos e fomos para a Praia da Baleia, em Itapipoca. 178 km de Fortaleza. Gostei de cara.
Ficamos na Pousada Paraíso, de Paulo e Isabel. Ocupamos duas suítes bem em frente ao mar. Era tarde, estávamos com fome, Paulo e a mulher foram preparar uma peixada para nós. Beijupirá. Não sei se era a fome, mas tudo me pareceu delicioso.
 Lá pelas quatro e meia saímos para conhecer (eu) Itapipoca, terra de Mary. Visitamos alguns parentes dela. Lanchamos. Milton fez um tour pela cidade. Paramos diante da praça principal. Visitamos a igreja, ouvimos o badalar dos sinos, chamando os fiéis para a missa. Fotografamos uma escultura com os slogans característicos da cidade dos três climas: jangada (mar), boi (sertão) e serra. A distância entre a praia da Baleia e a Cidade é de cinquenta e cinco quilômetros. Foi um bocado de chão rodado (233km) e Milton nem parece cansado.
Itapipoca quer dizer: pedra lascada. Ita= pedra: pipoca:= lascada. Tem tudo a ver, pois na região serrana fica a Pedra Ferrada com inscrições rupestres e materiais fósseis, datados de até dez mil anos atrás. Os fósseis foram encontrados em Taboca, Lagoa do Juá, Mocambo de baixo e Lagoa das Pedras. Estrigas esteve pesquisando por lá.
11/6/06 - A areia da praia é escura e sólida, por isso os carros circulam por ela, livremente. Fizemos todo o seu percurso: pousadas, mansões, barracas. A praia é manchada de algas. Aliás, as algas são pescadas e tratadas para exportação. Japão. Segundo Paulo, há um projeto do município para a utilização das algas na fabricação de cosméticos, cordas especiais e tecidos.
Pena, na ponta da praia, coberta de dunas, que dá um charme todo especial a orla, pois bem, os gringos estão adquirindo lotes para construção nas partes mais altas dos morros. Transferindo o ponto de vista de apreciação de sua beleza: hoje, de baixo para cima; amanhã, de cima para baixo. Antes, de todos; amanhã, de uns poucos.
Almoço: a família foi de mariscada: peixe, camarão, lagosta. Eu fui de grelhado, com arroz branco e batata frita. Peixe: beijupirá. Muito bom. Saímos de lá, as 14h. Finalmente, Milton pagou sua dívida: uma garrafa de mel do Curu, do apiário do irmão de Mary. É isso aí: amigos, amigos, negócios a parte. Feliz aniversário!                  

quinta-feira, 8 de agosto de 2019


          

Notas de um caderno de viagem V


25/03/2000 - Sábado - Mundaú - 6h Plínio passou por aqui e fomos nos encontrar com o grupo da Maria Martins, no Hospital de Messejana, para iniciarmos a excursão a Mundaú. Ônibus quase cheio. Jovens e adultos. Duas horas e meia de viagem. A 150km de Fortaleza. Estradas boas. Ficamos no Mundaú Dunas Hotel. Bom. Fizemos um passeio de catamarã pelo rio Mundaú. Duas horas. R$7.00 por pessoa.  De noite houve seresta no restaurante do Hotel. Boa comida. Peixe. A igrejinha foi restaurada com a ajuda de católicos alemães.
26/03/2000 - Domingo - De manhã andei a pé pela cidade fotografando casas bem primitivas: palha, taipa e tijolos aparentes. Parece que estamos ainda no século XVIII, não fora as parabólicas... Muitas, muitas crianças pelas ruas. 10.000 habitantes. 3000 rurais. Tudo muito precário. Praia suja de algas escuras. Mundaú pertence ao município de Trairí.

quinta-feira, 20 de junho de 2019



Notas de um caderno de viagem IV

19/07/1992 – Excursão a Baturité, Guaramiranga e Pacoti, com Plínio, Maria Felix e Maria Freire. Os pernoites foram no Hotel Escola (antiga residência de verão dos governadores). Comida excelente. Clima ideal. Muitas flores.
 Lá tem um pequeno teatro chamado Rachel de Queiroz, recém inaugurado sem a presença da homenageada. Pois não é que a velha senhora resolveu rebatiza-lo agora por ocasião do seu 82º aniversário. E lá fomos nós, também, abrilhantar a festa da grande família, que é grande mesmo, e de seus admiradores.
Em Guaramiranga está o ponto culminante do relevo estadual: Pico Alto, com 1.115m de altura. A cidade fica a uns 900m de altitude. Em Pacoti ficam os reservatórios de água que abastecem a cidade de Fortaleza. O tal vale das flores em Pacoti é um engodo.
                     

Mas Baturité, a 70km de Fortaleza, quente de dia, e agradável de noite, é uma cidade interessante. Tem uma casa/museu, Comendador Arruda (quase tudo na cidade é Arruda) curiosa e ligeiramente mórbida. Dava para escrever um conto de assombração. No alto da serra fica a antiga Escola Apostólica dos Jesuítas, agora casa de repouso. É toda de pedra e cal, lembrando um castelo medieval, sem ameias.
                       

Pousada dos Capuchinhos

A serra de Baturité fica entre os municípios de Baturité, Guaramiranga e Palmácia e foi declarada área de reserva ambiental, em 1990. A igreja é do século XVIII e o prédio de cultura fica na casa, onde foi declarada a Abolição da Escravatura em 1883. Baturité era a terra de nascimento de minha avó materna. Gostei.


segunda-feira, 20 de maio de 2019



Notas de um caderno de viagem III

 1/6 a 5/6/1984 – Viagem a Barbalha. Festa de Santo Antônio. Barbalha fica na região do Cariri. Parece, nesta época, uma cidade mineira, pela topografia e pelo clima.  Pela arquitetura, não. Dia 1° foi a abertura dos festejos de Santo Antônio. Quermesses, novenas, quadrilhas, paus-de-cebo, forró e muita comida típica.

O ponto culminante é o corte do pau da bandeira, que deve ser mais alto do que o do ano anterior e é trazido da mata até em frente da igreja pela população. Chega a ser emocionante. Músicas, fogos, alegria. O prefeito é muito jovem e o pároco muito aberto. A parte cantada da missa foi feita por cantadores da região.

O mais curioso, para mim, foi o grupo de penitentes. Ainda existente nessa região. Banda Cabaçal: pífaros e zabumbas. Aliás, o Cariri com suas três cidades: Juazeiro, Crato e Barbalha, quase gêmeas, mas tão distintas, merece uma temporada bem maior, com os olhos, os ouvidos, o olfato e o paladar bem apurados.

quarta-feira, 1 de maio de 2019



Notas de um caderno de viagem II
De 16 a 19/03/1979 – Viagem com Edna e Wilson a Juazeiro e Crato. De trem. Edna foi pagar uma promessa, de seu pai, já falecido. E que ela prometera pagar. A viagem dura a noite inteira. Nas paradas havia sempre vendedores de guloseimas, mas o que mais me chamou atenção foi o chá de canela, com seu sabor perfumado, dominando a madrugada, adensada por um nevoeiro quase frio. 
Juazeiro é uma cidade de romeiros, onde reverenciam Padre Cícero. Tudo na cidade faz lembrar-lhe: ruas, praças, becos e o grande número de pessoas que levam seu nome. Sua figura é reproduzida em barro, gesso, pedra e madeira. Batina preta, barba branca e o cajado na mão direita. Estampada em postais e santinhos. Sua história é contada e cantada em cordéis e violeiros. 
Visitamos o Cruzeiro no meio da praça; a igreja com seu túmulo; a casa dos milagres; o museu na casa onde morreu; o Horto. Subimos de táxi, mas fiz questão de descer a pé, para ver as capelas, erguidas na subida do morro, encimado por uma enorme estatua do Padre. Fotos. Ah, a postura e os instantes inusitados de seus adoradores. Alguns, algumas parecem talhados em madeira, com suas vestes monacais, marrons. A cidade de dia e de noite gira em torno dessa estranha devoção. Sons, rezas, cânticos, pregações... em todos os sotaques desses vários nordestes.










Crato é cidade mais antiga. E de vida aparentemente mais calma. Fachadas  neo-clássica. Fomos também visitar um balneário no alto de uma serra, Granjeiro (?). Aliás, a Chapada do Araripe oferece uma visão impressionante ao longo de uma planície verde/cana. Cana. A cana e seus produtos criam uma atmosfera particular, principalmente olfativa: o açúcar, o mel, a rapadura, o alfenim... doce.

sexta-feira, 19 de abril de 2019



Notas de um caderno de viagens 
                                

            Quixeramubim

     De 29 a 30/10/1978 – Viajando pelo interior do Estado do Ceará, com Evando. Paramos em Quixeramubim. Fiz Fotos. Inesquecível a igreja toda branca, no centro da praça ao sol do meio-dia. Há dentro dessa igreja um santo (tamanho natural) quase vivo ou estou tendo vertigens de luz e calor? Acho que não tenho diafragma para tanto esplendor.

                                                                *****
              Quixadá

   Em  Quixadá, pela primeira vez. O nome é um eco das crônicas de dona Rachel. Cidade rodeada de pedras. Quente. Vamos até o açude do Cedro, o lago imenso, guardado pela galinha choca, um dos símbolos da cidade. Construção majestosa. A muralha, as grades de ferro. A larga alameda. O caminho sombreado. Um oásis? Na volta, o almoço: carne-de-sol, com pirão de leite. Deliciosa. Nunca provei melhor.                       
        
                      
        

domingo, 17 de março de 2019


Carnaval Rio de Janeiro
Hoje, arrumando as estantes de livros, com a finalidade de conseguir mais espaço para os novos e dar baixa em alguns, que com certeza não  os lerei mais, encontrei este “Almanaque do Carnaval”, de André Diniz, e, com a proximidade da grande festa, comecei a ler aqui e acolá e acabei por constatar que testemunhei todas as fases da evolução do carnaval. E no Rio de Janeiro. Seu berço.
Quando cheguei nessa cidade, para morar, em 1948, (já havia visto o de 1945) ainda havia o “entrudo” sua forma original. A saída de blocos de sujo, os cordões, os ranchos, bailes, o corso na Avenida Rio Branco, depois na Getúlio Vargas, com arquibancadas de madeira, que fui alguns anos, até o Sambódromo, que nunca fui. Ah! o desfile do Cordão do Bafo da Onça e do Cacique de Ramos, na Avenida Rio Branco. De uma simples brincadeira de vizinhos e amigos é agora essa “opera aberta”, como a apelidaram, de fama internacional.
O carnaval passou de uma festa familiar a formação de grandes empresas que são as Escolas de Samba. Ocupam roteiristas (para bolar os enredos), compositores, marceneiros, pintores, aderecistas, costureiras/os, carregadores, cantores, músicos... o ano inteiro. Para a diversão de uma plateia inumerável de todas as nacionalidades e categorias sociais, os hotéis que o digam. Creio que, ainda assim, continua a ser festa mais democrática do mundo. Criando empregos e gerando dividendos para o país, não é a moleza que alguns rabugentos ainda o acusam de ser. Então, viva o Zé Pereira, que a ninguém faz mal.
Outra faceta do carnaval é que ele foi o veiculo criador de vários gêneros ou estilos musicais o samba, o samba enredo, a marcha-rancho, o frevo e as marchinhas, muitas delas tocadas até hoje em todas as manifestações de momo. Músicas compostas especialmente para essa festa contagiante. Creio que não foi composta para o carnaval, mas para os seus inimigos, podemos perfeitamente cantar estes versos da música de Caymmi, é só  fazer algumas adaptações:                    

 “Quem não gosta de “momo”
  Bom sujeito não é
  É ruim da cabeça
  Ou "de samba no pé".

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019


Visita Inesperada

Quando Cidamar chegou, de manhã, encontrou no corredor do apartamento um jovem gavião, a lhe olhar. Cidamar ofereceu-lhe o dedo e ele não se fez de rogado. Aceitou e entraram no apartamento, como se fossem velhos conhecidos. Fui-lhe apresentado. Ele me olhou e num leve arremesso pousou no encosto da poltrona e continuou a nos fitar. Seus olhos tinham uma tonalidade amarelada e me pareciam tristes. De que estaria fugindo: filho rebelde, ânsia de liberdade, penas de amor ou fome?
Nunca tinha visto um gavião de perto. Fui até o quarto, peguei a máquina fotográfica e fiz algumas fotos. Não se recusou. Posou. Abriu as asas, movimentou-se, exibiu a estampa de suas penas, como se fosse um modelo. Ele não crocitou uma vez, sequer. Como não tinha nada a oferecer-lhe, disse a Cidamar para colocá-lo na grade da janela para ele ir-se. Recusou. Não foi. Então Cidamar levou-o até o corredor e colocou-o no parapeito, aí, sim, ele bateu asas e voou.
Que bicho é esse? Intrigado, fui ao dicionário e ele me informou que se trata de uma ave de rapina diurna, da família dos Acipitrídios ou dos Falconídeos, que, em sua maioria, se alimentam de presas vivas ou de animais mortos. Olha só o perigo. É nome também de uma tribo indígena. E tem várias denominações. Contei, no Houaiss, cinquenta e três. Eis algumas: gavião azul, gavião caipira, gavião-do-mar, gavião-real, gavião rapina... é também, vejam só, indivíduo esperto, ladino, conquistador. Mereceu até um samba de Pixinguinha: Gavião Calçudo (1929):
“Quem tiver mulher bonita
Esconda do gavião
Ele tem unha comprida
Deixa os maridos na mão                     

Mas viva quem é solteiro
Não tem amor nem paixão
Mas vocês que são casados
Cuidado com o gavião”

terça-feira, 1 de janeiro de 2019


2019                       
Dizem as más línguas (e as boas, também) que o melhor lugar para a gente saber das novidades (fofocas?) é nas Barbearias ou  nos Salões de Beleza. Verdade ou não,  foi num desses salões que, por caso, peguei  uma revista que trazia as previsões astrológicas para o próximo ano de 2019, e ao som dos patatis patatas dos clientes fui lendo as tais previsão, pois sou como Cervantes: "no creo en brujas pero que las hay, las hay" .
E li que o planeta regente do ano é Marte. E como sempre ouvi dizer que Marte é o deus da Guerra, fiquei logo de pé atrás. Mas olha o que diz o astrólogo: "Considerado o planeta da paixão, do sexo e da ação, o astro vai intensificar os desejos {...} deixará as pessoas mais destemidas, ousadas e cheias de iniciativas, embora também  impulsivas". Olha só o que diz de Virgem meu signo: "Astral  vibrante na vida amorosa e sexual". Aos 98?
Me assustei mais ainda foi com a carta do Tarô: o Enforcado. Mas foi só ignorância do assunto. A carta indica um período propício para o crescimento espiritual e aconselha treinar a paciência e não forçar nada. Nova perplexidade:  "Mas se está só tenha certeza que irá viver um belo amor". Repito: aos 98?
Os Orixás serão Ogum, o senhor de todos os metais e que trouxe a tecnologia para o mundo: e Oxum a deusa da beleza e do amor. É, já me disseram que o meu orixá feminino é Oxum. Protejei-me, então. Eles são mais objetivos vão impulsionar as ações e estimular o trabalho. Gostei. Não fala de amores, mas aconselha aos virginianos a "prestar  atenção aos colegas de duas caras para não se complicar".  De olho neles virginianos.
Para os virginianos os números da sorte são: 0,18, 21, 32, 40, 57. Tentar a sorte é fácil num país que proíbe o jogo de azar (privado) mas, tem a seu dispor, publicamente: Loteria Federal, Loto, Sena, MegaSena, Totolec... É só fazer uma fézinha, porque com dinheiro aos 98 alguém se habilitará, né?

terça-feira, 11 de dezembro de 2018


São Paulo. 16/09/06 - Visita a Catedral Basílica Santuário de Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Fica no município paulista de Aparecida. Diz um folding  que é maior templo católico do Brasil e o segundo do mundo.  Ocupa mais de 143m² de área construída. É a terceira igreja a abrigar a santa desde a sua aparição. O Santuário é administrado pelos Missionários Redentoristas da Congregação do Santíssimo Redentor. É visitado por mais de 12 milhões de romeiros, por ano, de todas as partes do mundo.
O projeto é do arquiteto Benedito Calixto. Tem  a forma de cruz grega. Estilo: neoromânico. Tem uma passarela chamado de "Passarela da Fé", que a liga a antiga basílica, também a visitação de turistas e crentes.  Extensão: 395m que alguns fieis atravessam de joelhos. Ato de consagração: 4 de julho de 1980, pelo papa João Paulo II. Já foi visitada por três papas: João Paulo II, Bento XVI e  o  atual, Francisco. Já recebeu a Rosa de Ouro três vezes. A última foi pelas mãos de Francisco, comemorando os 300 anos do aparecimento da Santa. A rosa de Ouro é a mais antiga condecoração papal.
Saindo, agora, das informações turísticas vem a emoção de um quase descrente diante de tanta grandeza, mas também de tanta fé. O que é isso? Toda essa grandeza para abrigar uma santinha de poucos centímetros de altura, pousada num nicho inatingível. Negra. (Ela era realmente negra? Senão porque representá-la, assim?)
Havia muita gente. E nem era um dia especial. Quando chegamos, estava sendo rezada uma missa. O som desses cantos católicos vibrando dentro das naves dessas igrejas, também vibram dentro de mim. As vezes me dá até vontade de chorar. Catarse? A cara das pessoas que religiosamente crêem também mexe comigo. O que representa aquela pequenina imagem para essas pessoas? Muitas daquelas caras são brancas e talvez até preconceituosas. Mas, ali, só existe fervor. As vezes, nem conhecem a sua história apenas seguem a multidão se ajoelhando, suplicando, implorando uma graça qualquer. Eu? Permaneci em silêncio porque não sei nem rezar e sendo só - não pergunto, como Donne, "por quem os sinos dobram", mas quem rezará por mim, se isso for, realmente, necessário?


segunda-feira, 26 de novembro de 2018


São Paulo. 16/9/06 - Visita a casa de verão do governador paulista, que fica no Alto da Boa Vista, cidade de Campos do Jordão, na Serra da Mantiqueira. Campos do Jordão fica a 173km de São Paulo. A casa/palácio foi mandada construir pelo então governador de São Paulo Adhemar de Barros (1901/1969). Adhemar governou São Paulo duas vezes, de 1947 a 1951 e 1963 a 1966. A casa tem a forma de um castelo. Estilo Tudor, diz o guia. O arquiteto foi Georg Przyrembel.
Dentro, é uma mistura de tudo. Parece um antiquário: móveis, louças, cristais, prataria, lustres de vários estilos e origens. Muitos quadros originais de pintores brasileiros. Principalmente dos modernistas: Malfati, Tarcila (Os operários), Di Cavalcanti, Portinari, Guignard, Di Cavalcanati, Djanira, Rego Monteiro... Diz ter 105 cômodos e cerca de 1800 obras de arte.  No último quarto, a grande cama mandada confeccionar especialmente para adormecer o enorme corpo do General De Gaule (2m20cm), quando de sua visita ao Brasil, em 1964.
Ao lado do castelo há uma capela moderníssima. O folding diz que o arquiteto foi Paulo Mendes da Rocha. E que foi construída sobre um único pilar. É dedicada a São Pedro Apostolo. Mas há uma escultura de São Francisco em ferro vazado. Sozinho. Rodeado de bancos de madeira envernizada. As paredes são de vidro, deixando ver a paisagem montanhosa ao redor. A Serra da Mantiqueira. Cujo nome me fez lembrar a seresta de Ary Kerner Veiga de Castro, gravada por Gastão Formenti, em 1932:
Na serra da Mantiqueira
Sob a fronde da mangueira
Que ela em moça viu plantar
Sentadinha no seu banco
Cruzando o cabelo branco
Mãe Maria vai sonhar...


quinta-feira, 8 de novembro de 2018


22/02/08 - Visita a Gruta de Ubajara - Ubajara é um município cearense situado na Serra da Ibiapaba ou Serra Grande, a 304 km de Fortaleza. Tem uma área de 421 km. Numa altitude de 847m. Gentílico: ubajarense. Um de seus articulistas diz que o nome é de origem tupi e quer dizer: dona da canoa (ubá=canoa e iara=senhora).
 Sua principal atração é a Gruta de Ubajara, situada no Parque Nacional de Ubajara, criado em 1959. Fica a 3km da sede do município. O Parque tem por atração: trilhas, cachoeiras e onze cavernas. O acesso a gruta que se visita é feito por um teleférico e acompanhada por monitores. Trezentas pessoas por dia e doze de cada vez. A Gruta tem 1.200m de extensão numa depressão de 535m. O bondinho vai até setenta e cinco metros de profundidade. O terreno é muito irregular, escorregadio, as vezes, e um pouco sufocante. É escura. Os monitores usam refletores que focalizados sobre as formações rochosas desenham formas e tonalidades de  estranha beleza.
É pena que a propaganda sobre turismo no Ceará se concentre mais  nas praias, quando o estado possui um interior tão diversificado e particularmente bonito. E temperaturas que em certas épocas do ano lembram as das regiões sulistas. Como amazônida, um dos aspectos climáticos que mais me chama atenção é - o vento. Sob um sol escaldante encontrar uma sombra é ter a certeza de uma onda de aragem te refrescará. Ou invocar Caymmi:
"Vento que dá na vela
Vela que leva o barco
Barco que leva a gente
Gente que leva o peixe
Peixe que dá dinheiro, Curimã".

quinta-feira, 18 de outubro de 2018


9/7/1987 – Viagem: Fortaleza, Belém, Amapá, Belém, O trecho Belém a Macapá, de ida, foi de navio a volta de avião. Macapá é um município brasileiro, capital do estado do Amapá. Situa-se no sudeste do estado e é a única capital estadual brasileira que não possui interligação por rodovia a outras capitais. 
Saímos de Belém para Macapá, a meia noite do dia 9. Chegamos dia 11. Vinte e nove horas de viagem, pelo Rio Amazonas, cruzando a oceânica baía de Marajó, se enredando pelos curiosos estreitos de Breves. Nas curvas dos paranás, o navio apita uma ou duas vezes, avisando que vai para este ou oeste. As crianças se aproximam do navio, em suas canoas, a espera de que lhes joguem alguma coisa: comida ou roupa ou brinquedo. É de se ver a perícia da necessidade.
A ausência de eletricidade é suprida por uma enorme lua cheia sobre a mata e o rio. De vez em quando, nas margens "bruxo-leia" a chama de um farol, com lembranças de olhos de cobra-grande. E a grande e profunda solidão do espaço plantado e inundado. O aparente repleto do nada.
As atrações de Macapá são: as praias, o Forte de São José (onde um grupo de teatro já encenou a Paixão e então  ensaiava a Loucura de Artaud) Um  dos principais pontos turísticos é:  o Marco Zero, um grande relógio de sol construído para indicar o local por onde passa a Linha do Equador, que divide a superfície terrestre, de forma imaginária, em dois hemisférios, o  momento exato da ocorrência do equinócio, quando os raios de sol, de forma aparente, incidem exatamente sobre a Linha do Equador. Viagem inesquecível.

quinta-feira, 11 de outubro de 2018



25/08/10 - 4ª feira: City tour: orla marítima (a avenida litorânea tem seis quilômetros); Centro histórico: Praça dos Leões, palácio de La Ravardière, Praça Pedro II, Igreja da Sé, beco e ladeiras, Projeto Reviver. Almoço.
O evento está se realizando no Hotel Poti. Palestra e depois uma apresentação de Tambor de Creola e Boi Bumbá. Informações:
Natural de São Luis: saoluisense.
Fundação da cidade de São Luis: 1612;
A Ilha mede: 805km²
População: 1.000.000hab
A Ilha de São Luis tem quatro cidades: São Luis, Raposa, Paço do Lumiar e São José de Ribamar. As três cidades: 1.300.000hb.
  
26/o8/10 - 5ª feira: Um passeio sempre agradável: Alcântara. Alcântara pode ser alcançada por terra e por mar. Já estive lá umas três vezes, todas de barco, atravessando a Baia de São Marcos, ora serena ora revolta. Alcântara é um município da Região Metropolitana de São Luís, no estado do Maranhão. Área:  1457,96 km². A zona do atual município era habitada por índios tupinambás, numa aldeia chamada Tapuitapera. Fundação: 22 de dezembro de 1648. Distância até a capital: 30 km
O desembarque é no Porto do Jacaré. Sobe-se até o centro da cidade, por calçamento rústico, até a Praça, onde está a ruína da Matriz de São Matias e o antigo Pelourinho. Ao redor, sobrados coloniais revestidos de azulejos portugueses. A Cadeia e Museu, século XVIII.
Mais adiante, as ruínas do Palácio Negro, antigo mercado de escravos. Ruínas das casas que disputavam a hospedagem do Imperador, que por isso mesmo desistiu da visita a Alcântara, dizem os guias. Rua da Amargura. 
Visita a Casa de Cultura Aeroespacial, onde militares mostram vídeos das atividades da Base de Alcântara. Fotos de foguetes e outros artefatos aeroespaciais. Indumentária. Uma réplica da Sonda 4 (foguete de testes).
Fora essa demonstração de modernidade, Alcântara nos faz mergulhar num passado de vários séculos. E, quase inacreditável, dada a distância da Ilha de São Luis, que tenha tido um passado tão rico, conforme se vê nas ruínas de casas de barões e altos comerciantes. Numa de suas igrejas, o guia mostra o púpito em que pregava o Padre Antônio Vieira.
Vale uma visita.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018


Há quarenta anos esta noite - VII 

Creio que a mais popular invenção do século XX  – foi o cinema. Foi por meio dele que recebemos ou popularizamos o famoso “american way of  life”, isto é, boas e más influências, por exemplo:
moda: tênis, calça jeans, camisas de malha...;
alimentação: coca cola, hamburger, saladas...;
habitação: edifício, apartamento, elevador...;
transporte: carro (automóvel), motos...;
música: fox, swing, baladas, jazz...;
 idioma inglês: é só dar uma volta pelas ruas de nossas capitais e ler o nome de seus estabelecimentos... e a moeda? Ah! o dólar.
Eu recebi. "Gosto que me enrosco" de sanduíches, de calças jeans (ou assemelhadas), de camisa de malha, de tênis, da música americana e do cinema, então? Pena que a idade não me permita mais acompanhar os lançamentos como o fazia, antes. E não tenha estudado bem o inglês para ler seus autores no original. Grande literatura. E que bela língua! E em vez de ler, ver os filmes. Quanto dos filmes perdemos enquanto lemos as legendas.
Quando mudei para Fortaleza, a cidade era bem servida de cinemas. E boas salas. No Centro, havia o São Luis, o Diogo, o Fortaleza, o Cine-Art e os poeiras: Jangada e Old Metrópole;  no Center Um, primeiro shopping da cidade, havia o Gazeta, onde sexta-feira a noite e sábado de manhã passavam filmes de arte. Havia ainda as salas alternativas: Casa Amarela e Casa de Cultura Alemã. Frequentei-os com assiduidade.
Hoje, os cinemas mudaram de espaço, estão todos nos shoppings que se multiplicam pela cidade. No Centro resta apenas o São Luis, restaurado com os esplendores que merece. Primeiro, como um marco histórico e exemplar típico de uma época; segundo, como única sala de eventos, no centro; terceiro, deveria ser o ponto de partida para a tão discutida recuperação do centro da cidade.  
Sou frequentador de shoppings, mas vou pouco ao cinema. Porque? Pela falta das sessões contínuas. Não posso entrar no cinema com o filme começado e terminar de vê-lo na sessão seguinte. Fazer várias coisas e ver o filme no tempo que eu determinar.  Ver um filme, agora, é um programa e não uma rotina cultural, como antes.
Quem mais deve  estranhar a nova moda, são aqueles que depois do trabalho, entravam no cinema para esperar que a hora do aperto passasse para pegar um bom lugar no ônibus; ou dos namorados, que iam ao cinema por duas serventias: namorar e passar o tempo para ir para casa. No verão, então, era uma delícia: o ar refrigerado, o escurinho da sala e o aconchego dos corpos. Ah! tempos.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018


Há quarenta anos esta noite - VI

Gosto muito de ler. Era então natural que uma das primeiras coisas que procurasse na cidade fosse, livrarias. Qual não foi a minha decepção ao ver que só existiam duas: a “Livro Técnico”, na Praça do Ferreira e a “Renascença”, na Rua Major Facundo. Ambas no centro da cidade. Hoje, desaparecidas. Havia muitas livrarias de livros escolares. Mas livrarias para leitores de literatura mesmo, só essas duas.
Comecei, então a frequenta-las. Aí, vi que os estoques pouco se renovavam. Como comprava semanalmente o Jornal do Brasil e o Correio da Manhã, do Rio; e a Folha, de São Paulo, nas Bancas de Jornais da Praça do Ferreira e lendo os seus suplementos literários de sábados e domingos, estava sempre atualizado no que se publicava. Mas demoravam a chegar aqui ou vinham apenas dois ou três exemplares. Alguns já reservados aos figurões locais. Apelava, então para os meus amigos no Rio ou São Paulo.
Algum tempo depois, inaugurou-se a Moderna, na Aldeota, próxima ao Center Um. O gerente, Ari, era o mesmo que me atendia na Livro Técnico, da Praça do Ferreira. Estava protegido. Ia lá semanalmente. Fechou. A Nobel, na Dom Luís, também não demorou muito. Com a inauguração do Iguatemi foi inaugurada também a Siciliano, que perdura até hoje. Agora comprada (?) pela Saraiva. A única coisa que mudou foi o maior acervo de livros de direito da Saraiva. No mais, continua a preferência da Siciliano por best-sellers e auto-estima.
Hoje, a cidade está muito bem suprida de livrarias. Existem vários shoppings e cada um deles tem uma livraria, como: a Saraiva no Iguatemi e North Shopping, a Leitura no Del Paseo e no Rio Mar. Fora dos shoppings, existem a Nobel e a melhor de todas: a Cultura. Cito essas porque são as que mais frequento. Mas deve haver outras, pois me parece que o cearense está lendo muito mais agora do que quando cheguei aqui. Um dos grandes chamariz é o lançamento de livros de blogueiros e de padres católicos, nos shoppings. Superlotam. Antes pouco do que nada.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018


Há quarenta anos esta noite - V
Um dos aspectos da mudança ao qual tive mais atenção – foi a linguagem. Como já tinha uma certa deficiência auditiva, quando cheguei aqui, tive que redobrar a minha atenção ao ouvir os cearenses. Como falam rápido. E como acontece em qualquer região do Brasil teem um dialeto, com vocabulário, expressões, gestual e musicalidade, próprias.
Mesmo quando viajo gosto muito de prestar atenção a maneira de falar de meus conterrâneos. Como, por exemplo, os pequitititos diminutivos dos amazonenses ou o som da vogal “o” quase sempre transformada em “u”; ou a indicação: “ali”, sempre transformada em “ali bem”, pronunciada com um leve espichar do lábio inferior. O “uai sô”, dos mineiros; ou os “barbaridad tchê”, dos gaúchos; o “r” dobrado dos caipiras paulistas: porrta, corrda; ou os excessos de “ss” dos cariocas. Sem malicia, só o prazer da diversidade.
Em Fortaleza, anotei algumas palavras típicas ou usadas de maneira particular, que hoje, em virtude talvez da televisão e da grande mobilidade das populações, não existem mais. Quando cheguei aqui ouvia me perguntarem: “que hora é essa”, para, que horas são?; “diga aí”, para o que é que há? “Acochar”, para apertar; “rebolar” para jogar fora; “brechar” para espiar. As palavras: mulher, filho, velho, sempre em corruptela: muié, fio, fia, véia, véio. Isso até em pessoas de boa escolaridade.  Muitas das expressões maliciosas desapareceram, como: “pai d´egua”, “arre égua”,” baitola”. Costumam, ainda, comer os “ss” e “rr” finais das palavras ou trocar o para, por “pa”.
Não tenho nenhuma pretensão de crítica, pois não tenho credenciais gramaticais ou lingüísticas, para tal. Mesmo porque essas especificidades se verificam em todas as regiões. Em algumas nos identificamos nacionalmente, como nos: “marmenino”, “mermo assim” e outras que não me ocorrem agora e não vem ao caso.
O que mais me chamou atenção, quando cheguei aqui, foi o apodo de Zé. Era seu Zé pra cá e seu Zé pra lá e eu fazendo força para engolir em seco o tal de Zé, que não queria em mim.
- Seo, Zé, me dê uns trocadin.
- Seo,Zé, me dê umas foia de mamoero.
Eu que tivera tanto trabalho para ser chamado pelo meu pré nome, de que tanto gosto, ver-me de repente transformado num Zé qualquer. Mas foi coisa de instante e ontem como hoje continuo a ser o Alberto de sempre. "Garra a Deus!”, como dizia uma de minhas tias afim.
Mas foi justamente esse Zé, continuado ou não, que me chamou atenção para a minha nova condição de, embora nacional, migrante. E me impreguinou de tal forma que hoje me pareço um amazonense meio carioquisado e ciarensisado: nortista, sudestino, nordestino. Arre égua, macho velho!

sexta-feira, 24 de agosto de 2018



Há quarenta anos esta noite - IV

Creio que, então, um dos serviços mais precários da cidade, era o transporte. As linhas de ônibus me pareciam mal distribuídas. As vezes, tínhamos que andar cinco quarteirões para tomar uma condução. O serviço noturno era mais precário ainda. Taxi  era caro e os ônibus paravam praticamente as vinte horas, depois só o "corujão" a meia noite. Nesse setor, também tivemos que nos adaptar. No Rio, os ônibus são identificados normalmente pelo número, embora tenham nome. Aqui, é sempre pelo nome, embora tenham número, também. “Vais tomar o Jovita?” “Não, vou de Rodolfo Teófilo.”.
Por isso, tentei me motorizar. A distância dos mercados, das feiras, dos divertimentos, me levou a comprar um carro. Mas decididamente não nasci com o espírito de Senna ou Massa. Chegar em casa de madrugada e ter que estacionar o carro, abrir a porta do carro, sair e fechar; abrir o portão, abrir e fechar novamente a porta do carro para colocá-lo na garage; sair outra vez do carro e fechar o portão; trancar o carro e abrir e fechar a porta de casa. Não. Decididamente, não. Vendi o Fiat... E foi quando, a meu favor, apareceu o serviço de central de taxis: Rádio Taxi. Basta um telefonema e lá veem eles com o número de portas que eu desejar e como na marchinha de carnaval, até: “com ar refrigerado para os dias de calor”. Assim tenho, até hoje, cerca de quatrocentos carros, com mesmo número de motoristas, a minha disposição, a tempo e hora.
Também nesse setor Fortaleza progrediu muito: foi instituído o Bilhete único, a instalação de binários, passarelas, bicicletas compartilhadas, carro elétrico compartilhado, faixas exclusivos para ônibus,  linha de metrô entre Fortaleza e Paracuru; de VLT entre Fortaleza e Caucaia... existem várias centrais de taxi: Rádio Taxi, 99, Uber, Rodotaxi, Capital...o pagamento pode  ser feito a dinheiro ou cartão de crédito. Pode ser chamado na hora ou agendado. Até pedi para ser acordado de madrugada, por exemplo, para não perder a hora da viagem.
Creio que a mobilidade urbana seja um dos problemas mais difíceis de serem resolvidos em Fortaleza. Não será alargando ruas ou avenidas, construindo túneis ou viadutos que ele será resolvido, quando se sabe que entram na cidade cerca de três mil novos carros por mês e as "carroças", como diria o Collor, não são retiradas do tráfego. Creio, porém, que esse não é um problema daqui, mas de todas as grandes cidades. Carro como status. E dizem que Fortaleza é uma das capitais do país com mais carros importados.

domingo, 12 de agosto de 2018


Há quarenta anos esta noite - III

Toda vez que se invoca o nordeste, pensa-se logo, em seca. Quando cheguei aqui, ouvia falar até de “indústria da seca”. Promessas eleitoreiras não cumpridas, desvios de verbas públicas para bolsos particulares, esmoleres aos “magotes” pelas ruas. Estes, na verdade, chegavam a incomodar. Certa vez, ouvi alguém dizer: se eu for dar esmola a todos que me pedem vou ter que pedir também para voltar para casa. Morando em casa, era quase necessário ter uma pessoa exclusiva para atender aos pedintes ou despachá-los.
Foi por causa de água que quase não me fixei aqui. A primeira casa que aluguei tinha água de poço. Não sabia lidar com as tais bombas. A da casa recém alugada quebrava mais do que funcionava. E eu não dava trégua a meu primo Eduardo. “Eduardo, a bomba quebrou. Me arranja um bombeiro”. E lá vinha ele com um especialista, contratado no centro da cidade. Eles ficavam a espera de trabalho, geralmente, na esquina da Rua São Paulo com Barão do Rio Branco.
Até que rescindi o contrato de aluguel e mudei para uma casa recém construída, com água encanada. Respirei. Eram poucas as ruas de bairros que tinham água encanada (Cagece). E muitas pessoas não confiavam nos serviços da empresa. Preferiam água de poço, cuja água diziam ser pura. Havia, então, os chafarizes. Os moradores mais abastados contratavam pessoas para entrarem nas filas de madrugada para recolherem água, de manhã cedo. Eles as recolhiam geralmente em latas de querosene, que eram também uma medida de valor.
Todas as casas tinham poço, cuja água os moradores usavam para os serviços de casa. A água para beber era a do poço público.  Perto da minha casa havia um chafariz, na chamada Pracinha, na Rua Érico Mota, atrás do colégio Monsenhor Linhares. O horário ia de seis as dez horas da manhã. O carregadores cobravam cinquenta centavos do cruzeiro para levá-las até em casa. Havia também terrenos particulares com poços de água pura que os proprietários vendiam.
Diziam que havia lugares na cidade que só tinha água de poço.  No sítio de meu amigo Estrigas, no Mondubim, a uns doze quilômetros de distância do centro da cidade, ainda era assim. Consultando um site da cidade de Fortaleza, li que a cidade, na época, não tinha cinquenta por cento de água encanada. É o tipo de obra que além de perturbar o cotidiano da cidade, não dá visibilidade aos políticos. Fica, então, só em projeto. Promessa do candidato a governador ou prefeito na próxima eleição. E o eleitor que acredite e vote ou troque  o voto por um simples favorzinho. “E la nave..."

sexta-feira, 20 de julho de 2018


Há  quarenta anos esta noite - II      

A mudança não foi fácil. Principalmente para minha mãe e minha irmã. Morávamos na Rua Djalma Ulrich, em Copacabana, onde tínhamos de tudo: amigos, parentes, serviços, diversão, em cada quarteirão... e de repente mudar para a Avenida Jovita Feitosa, na Parquelândia, recém asfaltada e com plantações no meio fio que não sabia se iam vingar sob tanto sol ardente e ventos fortes. Na avenida, na época, não havia uma casa de comércio. Foi fogo! Mas com a ajuda dos parentes tudo se arranjou.
Tivemos que nos reeducar em algumas coisas já esquecidas e nos adaptarmos em outras. A alimentação foi uma delas. Há quarenta anos as feiras de Fortaleza ofereciam somente o mais trivial, em matéria de hortaliças. Oriundos do norte, onde não usávamos muito essa forma de alimento, facilmente nos adaptamos a eles quando mudamos para o Rio de Janeiro. Aqui, voltamos a nos privar de espinafre, couve-flor, jiló (uma das preferências de minha mãe), chuchu, abobrinha, beterraba, beringela, batata baroa... Hoje, tem tudo isso e muito mais.
Eu tive que aprender a fazer compras de casa. Supermercado, por exemplo. O rancho, que aqui dizem fazer o "mercantil". Ir a feira, outra aprendizagem. Procurei fazer amizade com os feirantes, falando-lhes francamente da minha inexperiência e eles foram muito simpáticos. Me ensinaram a escolher o peixe (o brilho dos olhos, a cor da guelra; a apalpar as frutas sem machucá-las...). Fiquei mestre e fiz amigos. Hoje, sou um dos grandes apreciadores das feiras livres  e dos grandes super mercados. Embora só faça esses, atualmente.
Nota - Ainda existem feiras, mas a novidade dos supermercados as substituíram em quase tudo: Éxtra,  Carrefour, Cometa, Pão de Açúcar, São Luís, G. Barbosa, Assaí...praticamente existe pelo menos um em cada bairro da cidade.

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